sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Para uma criança gostar de ler


É quase unanimidade a idéia de que ler faz bem para o desenvolvimento de uma mente saudável. 

Baseados nisto, muitos pais têm um grande desejo de que seus filhos se tornem bons leitores, mas nem sempre sabem muito bem como podem ajudá-los.

Comecemos pelo óbvio: seu filho terá maior probabilidade de gostar de livros se você, pai/mãe, também gosta. O princípio é simples. Se a criança percebe que você se relaciona bem com os livros, a leitura poderá ser vista por ela como algo natural.

Compartilho aqui algumas simples idéias para incrementar a relação do seu filho com a literatura. 

Obviamente, elas não são garantia de que eles se tornarão leitores vorazes, mas talvez possam ajudá-los a desenvolver um primeiro contato com o gosto pela leitura.


1. Não é preciso esperar a criança aprender a ler para colocá-la em contato com um livro. Você pode dar a ela, desde muito pequena, livros de pano, livros de plástico etc. Os livros podem ser introduzidos na vida da criança como objetos para brincar, e isto poderá contribuir com que ela veja o contato com um livro como algo lúdico e não enfadonho;



2. Toda vez que você adquirir um livro novo, conte para ela, mostre a capa, diga o nome do livro, e que história está contida nele, o que você pretende aprender com ele. Permita com que ela perceba a relação que você tem com os seus livros;


3. Frequente livrarias com a criança, sente-se com ela na seção infantil, descubra os livros junto com ela, permita que ela mexa neles, estimule-a a encontrar algum que ela ache legal;

Visitinha à livraria só pra estar entre livros

4. Leia para seu filho, tentando criar um pequeno hábito de leitura para ele, de preferência por curto tempo inicialmente, veja se ele está interessado na história. Tente contar a história de maneira inventiva, dramatizando um pouco os personagens e as falas.

Uma cabaninha para leitura

5. Quando pedir livros pela internet, possibilite que a criança participe do momento da compra, ou às vezes, veja se ela gostaria de escolher algum pequeno livro para incluir no pedido. Quando chegar pelo correio, convide a criança para abrir a encomenda junto com você, brinque com a expectativa sobre qual livro será, que história nova ele vai contar etc... (aqui em casa, mesmo quando a encomenda chega e a criança não está em casa, eu seguro minha ansiedade pra abrir só quando ela chegar, e geralmente a hora de abrir o pacote é uma pequena festa em família)

A chegada dos livros é sempre bem celebrada

6. Se possível, assine gibis ou alguma revista infantil, e valorize o dia da chegada da edição;




7. Leve a criança para um passeio pela biblioteca da cidade (ou da universidade), dizendo que vão visitar "a casa onde moram os livros". Explore junto com ela os locais dos livros, ande por entre as estantes, coloque-a em contato direto com o acervo, mostre as pessoas sentadas às mesas lendo os livros. Geralmente as crianças ficam fascinadas com o número de livros que moram naquela casa.

Passeio na casa onde moram os livros

Descobrindo as estantes de uma Biblioteca

8. Em casa, uma idéia simples é brincar de livraria com a criança. Com alguns livros e revistas, uma mesinha, e um pouco de criatividade, dá pra montar uma linda "livraria" na sala da casa. Você pode ser o comprador, à procura de livros interessantes para para dar de presente ou levar pro seu filho, e pode pedir ajuda ao livreiro, que no caso pode ser a criança. Ou é claro, pode-se alternar conforme a brincadeira vai se desenvolvendo. O legal é deixar a criatividade comandar a brincadeira...

O "livreiro" em sua linda livraria na sala do apartamento
Feirinha de gibis


9. Mantenha sempre os livros ao alcance das crianças, colocando-os em estantes baixas de fácil alcance. Assim elas podem pegá-los a qualquer momento.
Livros ao alcance

10. Aproveite as perguntas que as crianças fazem para estimular a busca de respostas através dos livros, seja adquirindo um novo, ou indo com elas até a biblioteca para fazer pesquisas sobre o tema.

Buscando nos livros as respostas para as questões que surgem no dia-a-dia

11. Estimule a hora da leitura, antes de dormir.
Lendo a Turma da Mônica pro irmão mais novo


Não tenho a pretensão de dar por encerrada a lista de sugestões. Sei que muitas outras idéias podem ser praticadas e descobertas por muitas outras pessoas.

Estas que acabo de compartilhar são pequenas atitudes que busco ter no meu dia-a-dia com meus filhos, na esperança de que eles façam do livro um companheiro para suas vidas. A escolha será deles, mas podemos tentar dar a nossa contribuição.




segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Criança não é projeto de gente

Hoje tive acesso a um livro que eu não sabia que existia.
Escrito por uma psicóloga que se diz terapeuta infantil, o livro começa definindo a criança como um "projeto de gente".
Sinceramente, não entendo como alguém que trabalha com atendimento infantil consegue conviver com esta ideia de que uma criança não é gente, não é uma pessoa, mas apenas um projeto.
Dito isto, não causa surpresa saber que a tese principal do livro é que os pais devem usar o tapa na bunda como forma de educação, utilizando-se de argumentos simplórios, frases de efeito estereotipadas e textos repletos de clichês.
Não vou dizer quem é a autora, nem vou citar o livro.
Já fico um pouco aliviado que apesar dele ter sido lançado em 2011, eu ainda não havia ouvido falar dele até hoje.
Isto pode ser um indício de que ele não passe de um fracasso de vendas, para felicidade das nossas crianças e nossas famílias.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Grupo de Estudos Narrativos




Direcionado para psicólogos interessados em conhecer mais a respeito das práticas narrativas, este grupo tem a proposta de ser um espaço de discussão teórica e clínica.

O grupo com início marcado para 05/julho alcançou o número máximo de participantes e está com as inscrições encerradas. Porém, estamos abrindo a possibilidade de um segundo grupo com novas datas, também às terças feiras, com início no dia 12/julho.

Para participar, é só mandar um email para psicojd@gmail.com ou whatsapp 9981-3821 e confirmar sua inscrição.

Abaixo estão as principais informações.


Grupo de Estudos Narrativos - Grupo 2
(conversações teóricas e supervisão de casos)
Coordenação: João David C. Mendonça  (CRP 12/03702)

5 encontros quinzenais de 90 minutos (terças feiras das 14h às 15h30min)

Local: Familiare Instituto Sistêmico - Florianópolis, SC
Novas datas previstas:   12/07, 26/07, 09/08, 23/08, 06/09

Valor: R$ 50,00 por encontro

Contato e inscrição: whatsapp 9981-3821 / psicojd@gmail.com

Outras informações


O grupo será pequeno, entre 4 e 7 pessoas.


Pretende-se trabalhar alguns conceitos e práticas narrativas a partir das experiências pessoais e clínicas que cada participante poderá trazer para o grupo.


Também pretendo discutir alguns casos clínicos que podem ser trazidos por mim ou por algum participante. Porém não será uma supervisão tradicional de acompanhamento sequencial do caso, mas uma intervenção pontual, focando mais no terapeuta e suas habilidades do que no conteúdo do caso em si.


De acordo com as conversas, poderemos sugerir e repassar alguns textos em pdf (em inglês, espanhol ou português) para que cada participante possa aprofundar o que está sendo debatido. Algum destes textos poderão ser trabalhados mais a fundo no próprio encontro, dependendo do interesse do grupo.


Não há um esquema prévio fechado de temas, pois vai depender muito de como o grupo vai preferir caminhar, e dos casos que vamos discutir.


A participação será considerada para os 5 encontros mesmo que a pessoa falte em algum.


Este projeto é fruto de uma idéia em que venho pensando há algum tempo: trabalhar com pequenos grupos de estudo e supervisão tendo como base principal a perspectiva narrativa, pois acredito que trabalhar a partir desta abordagem tem um efeito revitalizador para o terapeuta em sua experiência profissional.


É um formato que será novo para mim, sobre o qual eu coloco algumas boas expectativas, mas também creio que ele irá se aprimorando a partir das conversas e da participação da pessoas que toparem se envolver com ele.

A intenção é que esta experiência possa enriquecer a identidade profissional e a prática terapêutica dos participantes.

domingo, 5 de junho de 2016

O que leva um adulto a bater numa criança

Algumas idéias para tentar entender o que leva um adulto a considerar normal o uso da punição física infantil:

Naturalização cultural 

Uma naturalização cultural de dimensão transgeracional. Quem apanhou tende a reproduzir o “sistema educacional” que recebeu, sem perceber os efeitos nocivos desta reprodução. Para muitos desses pais que apanharam na infância, pensar na possibilidade de educar os filhos de maneira diferente (e até melhor) pode soar como um desrespeito ou como uma deslealdade aos próprios pais. 

Deste contexto, surge um conhecido discurso vindo das pessoas que batem nos filhos: agradecem pelas palmadas que levaram de seus pais, atribuindo a elas a responsabilidade por serem hoje “pessoas de bem”. 

Para entender melhor este discurso, vale citar o conceito de “lealdades invisíveis”, desenvolvido pelo psiquiatra húngaro Ivan Borzomenyi Nagy. Estas lealdades são vistas como forças secundárias que regulam nossos comportamentos e nossos pensamentos, como se fossem compromissos invisíveis internalizados a partir da fantasia de que agir ou pensar diferente poderia colocar em risco a manutenção da relação ou da imagem de seus pais ou cuidadores. 

Assim, é tão importante, para muitas destas pessoas, que as palmadas sejam consideradas como “boas lembranças” e até mesmo repetidas em seus próprios filhos. Propor um caminho de educação que saia deste padrão é sentido como uma ameaça ao status quo do legado familiar.

Criança só entende apanhando

A noção equivocada de que criança não tem capacidade plena de compreensão, fruto também de uma cultura que não valoriza a Infância. Esta noção leva à ideia de que para aprender, a criança precisa apanhar, pois ela só entende a “língua da palmada”.  

Assim, temos hoje uma sociedade que já conseguiu proibir os escravos de apanhar, já criou leis para defender as mulheres, já não bate mais nos seus "loucos", já criou instituições de defesas dos índios, já considera crime a tortura de prisioneiros, já luta contra o mau trato aos animais, mas ainda considera normal e socialmente aceitável bater numa criança.  


Mostrar autoridade

Outra ideia que contribui para o uso da violência: os pais precisam dar uma palmada na criança para mostrar a sua posição de autoridade na família. Pois eu sugiro um raciocínio diferente: a palmada, ao contrário de afirmação de autoridade, é consequência da sua ausência, é o sinal de que o pai não sabe mais o que fazer, perdeu a capacidade de raciocinar e de estabelecer-se como autoridade na vida do seu filho. 

Quando um cuidador perde a autoridade, fica mais vulnerável a atitudes de descontrole e impaciência, mais próximo de “perder as estribeiras”. É claro que toda criança vai confrontar seus pais, vai desobedecer, vai fazer birras. A diferença está na maneira como os pais vão responder a este confronto. Se respondem com tapas ou palmadas, perdem a oportunidade de mostrar quem é o adulto da situação. 

Se os pais querem que os filhos confiem em sua autoridade, precisam posicionar-se como adultos que buscam enfrentar adversidades, provocações e irritações com auto-controle e maturidade. Isto servirá de exemplo para a criança, e será um modelo emocional muito mais eficaz que palmadas, surras ou gritarias.


Bater para evitar problemas futuros

A ideia de que criança que não apanha vai apresentar problemas mais tarde também influencia muitos pais e educadores. Porém, inúmeras pesquisas já comprovaram que crianças que costumam ser “corrigidas” ou “ensinadas” à base de força bruta estão mais vulneráveis a adotar comportamentos transgressores e agressivos do que outras que são criadas num cultura de não agressividade. 

Aqui entra mais um discurso popular que precisa ser questionado: “bato no meu filho para ele não apanhar da polícia no futuro”. Costumo responder a esta fala com a ideia de que quanto mais você bate no seu filho, mais você o aproxima de apanhar da polícia no futuro.


Discursos estereotipados

Algumas crenças enraizadas no senso comum também cooperam para o uso da violência: “Bato para o bem do meu filho, porque o amo e quero o melhor para ele”. “Bato porque a criança precisa ser corrigida para não sofrer mais tarde”. “Bato para ensinar o que é certo e o que é errado”. “Bato para ser obedecido”. 

São discursos prontos que vão sendo incorporados pela sociedade sem que hajam reflexões críticas que questionem sua eficácia. Tudo que se deseja nestas falas – demonstrar amor, corrigir, ensinar - pode ser alcançado sem o uso da violência física.


Cultura religiosa

É muito forte a presença de idéias religiosas que reforçam o uso da palmada, especialmente através de uma interpretação literal e descontextualizada de alguns textos bíblicos que falam de disciplina e uso da "vara". Aqui é possível ler um pouco mais sobre isto: Os cristãos e a lei contra a punição física


Bater para impor limites

Por último, outro pensamento que influencia o uso da força está baseado na confusão entre “educação sem violência” com “educação sem limites”. Pais ficam temerosos ao pensar que se não baterem nas crianças, elas ficarão sem limites e desobedientes. Mas há muitas formas de impor limites sem que se faça uso de qualquer punição física. Negar-se a usar a política da palmada não é negar-se a educar, a disciplinar ou a impor limites tão necessários na formação da criança. É, ao contrário, a tentativa de constituir uma relação familiar que seja diferente do modo vigente em nosso mundo já tão repleto de maus tratos, opressão e injustiça.

Intenção versus resultado

Não acredito que os pais gostem de bater. E creio que quando eles batem, eles realmente estão achando que estão educando e ensinando a criança. Não há dúvidas de que, a não ser em casos patológicos, todos os pais desejam o melhor para seus filhos. Mas ao utilizar a punição física, a boa intenção dos pais ou educadores não é correspondida na prática, e o resultado é antagônico ao que se pretende. 

Criança não aprende apanhando

Quando uma criança recebe uma palmada, seu cérebro percebe este ato como uma experiência de perigo, e reage de acordo com esta percepção. E esta experiência coloca a sua mente em um estado em que não se consegue aprender nada. 

A criança apenas reage de acordo com a mensagem que recebe: mudar o seu comportamento negativo. Ela obedece o comando cerebral imediatamente, o que gera a ilusão por parte dos pais de que a palmada “resolveu o problema”. 

Mas como é um comportamento reativo e não elaborado cognitivamente (pois o ato violento da palmada 'desligou' o seu sistema límbico, que seria o centro emocional que ‘aciona’ a aprendizagem e compreensão), ela na verdade não aprendeu nada. 

Repetirá o comportamento em breve, despertando a fúria dos pais, que respondem com mais agressão, o que desliga novamente a capacidade de aprendizagem da criança, entrando assim numa rota retro alimentadora da violência que gera cansaço e desesperança em ambos os lados: nos pais que concluem que a criança está merecendo apanhar porque insiste em lhes provocar, e na criança que, sem entender, conclui que os pais não a amam porque insistem em lhe bater.

E instala-se aqui uma sucessão sistemática de medo, raiva e ressentimento entre pais e filhos.

sábado, 4 de junho de 2016

As palmadas e a aprendizagem escolar

Não é muito difícil compreender que experiências de violência severa geram consequências traumáticas numa criança. 

Mas o que é importante observar, e que nem sempre é compreendido com clareza, é que mesmo as palmadas consideradas “educativas” também geram muitas interferências nos processos de aprendizagem.

Se entendemos que a capacidade de aprendizado está associada a um estado de tranquilidade emocional, não será difícil deduzir que uma criança que sofre com frequência algum tipo de punição física não terá as condições psicológicas adequadas para vivenciar processos de aprendizado que demandam concentração, autoconfiança, autocontrole, segurança de si.